quinta-feira, 7 de agosto de 2008

“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar"


Fusão de ritmos musicais importante, nosso gênero musical passou por algumas transformações, conquistou espaço entre o público jovem, e é constantemente fonte de inspiração para a MPB

Por Cleanderson de Paula, Daniel Henrique, Fabius Alvim, Marcus Ramos e Priscila Silva

Discriminado durante muitos anos, o samba demorou a conquistar espaço e ser reconhecido como um ritmo de grande importância para a cultura do Brasil. Mas, a situação atual é diferente. Apesar da inconstância que ora o coloca no topo, ora o coloca no fundo da gaveta, a verdade é que o gênero nunca morre. Hoje, o samba pode ser considerado um ritmo que serve de inspiração para vários outros. E, além disso, anda conquistando também o público jovem, que lota os espaços destinados ao ritmo em Belo Horizonte e no Brasil.


Com as novas tecnologias, os músicos de hoje não param de criar vertentes do samba. O uso de instrumentos eletrônicos, como contra baixo, guitarras, teclados e pedaleiras, faz com que o samba ganhe uma nova “cara”. Ritmos como o rock, reggae e funk buscam inspiração para suas músicas e grupos de pagode foram resgatar toda a poesia do mestre Cartola, fazendo o mesmo samba romântico, com novos instrumentos, mas com a mesma intenção: intenção de se fazer samba.


“O samba se renova, abraça o que nasce de novo”, afirma Acir Antão, locutor da Rádio Itatiaia, e um grande apaixonado por música. Prova disso, são os cantores já bem sucedidos em outros ritmos, que também se renderam à musicalidade do gênero. Em 2006, Marisa Monte buscou na Velha Guarda da Portela, inspiração para fazer o disco Universo ao meu Redor, que conquistou o Grammy Latino de melhor disco de samba-pagode. No final de 2007, Maria Rita também resolveu experimentar o samba, e lançou um disco cujo nome, Samba Meu, revela que a intérprete se entregou ao gênero musical. A maior parte das composições do disco é de Arlindo Cruz, um dos grandes representantes do ritmo.


Tudo isso tem uma explicação. O samba hoje é a música preferida dos jovens entre 20 e 30 anos. Em Belo Horizonte, é possível perceber o apreço deles pelo gênero. Tem samba para todos os gostos. Samba que começa às 14h toda segunda, samba que começa às 2h da manhã todos os sábados. “São mais de 200 lugares dedicados ao ritmo na capital”, afirma Mestre Affonso, radialista da rádio Itatiaia, diretor de bateria e um apaixonado pela Estação Primeira de Mangueira. “Isso é samba que não acaba mais”, brinca.

Boa música e ambiente seguro

Cerveja “super-gelada”, tira-gostos, apresentações de grupos animados. Não importa o dia da semana nem a distância do local. Os amantes do Samba ignoram os detalhes para chegar até o som, mas sempre são consumidores exigentes quando questionados sobre a qualidade das casas de samba. Diferente do pensamento prático de que tais lugares são para paquerar, ficar e conhecer as pessoas “melhor”, a maioria dos freqüentadores está preocupada com o divertimento, longe, é claro, da violência e dos tumultos freqüentes em locais de música ao vivo. “Gosto de freqüentar casas de samba porque adoro esse gênero musical. Além disso, a tranqüilidade e o ótimo ambiente desses locais fazem toda a diferença quando penso em escolher um lugar para me divertir, afirma o designer gráfico Ronei Luiz de Sousa, de 40 anos.


Exemplo de sucesso, com respeito às preferências do consumidor, uma das casas mais antigas da capital, o Sapucaí 511, oferece o que há de melhor no samba de raiz. Constantemente há apresentações de grupo que trazem novidades. Além de muita animação em um ambiente despojado e aconchegante, o local é ideal para apreciadores do gênero e para os amantes de um bom buteco, parte essencial da grande BH, cidade dos bares, como é carinhosamente conhecida.


O Cartola Bar, tradicional casa de samba da capital, que há 13 anos proporciona aos amantes do gênero momentos inesquecíveis através de shows com grandes músicos que tocam o melhor do samba de raiz, prova que ao longo dos anos o interesse dos jovens pelo ritmo e sua importância cultural aumentou muito. Toda a poesia das composições do mestre Cartola e de tantos outros artistas, fazem a cabeça da moçada que lota o espaço de quinta a domingo. “Tenho notado sim o aumento do interesse dos jovens pelo samba, principalmente, os universitários. Esse interesse maior da juventude pelo ritmo é muito bom, porque tira também a imagem de que só as pessoas mais velhas apreciam esse gênero musical”, afirma um dos fundadores do Cartola, Cláudio Rangel da Silva.


O Cartola é apenas um dos locais dedicados ao samba do bairro Caiçara. Outros espaços também promovem esse gostoso ritmo no bairro, como o Ziriguidum, que fica na Avenida Presidente Carlos Luz, a famosa “Catalão”, e o Opção, que fica na Rua Alabandina, pertinho do Shopping Del Rey.


Existe hoje uma aproximação maior entre o jovem e a cultura brasileira e, em conseqüência, houve o aumento da valorização do samba a partir da descoberta de grandes mestres. Animadas rodas de samba, estão tomando conta de festas, bares e restaurantes, resgatando uma cultura que se concentrava mais no Rio de Janeiro. Ao longo dos anos, percebeu-se um preconceito da sociedade, da indústria cultural e da juventude com relação ao samba.


Entretanto, os jovens, enfim, perceberam que a música vai além de um simples refrão fácil. Com senso crítico e ouvido apurado, essa nova geração está descobrindo aos poucos, que o samba não é um som meramente reciclável, mas sim, um ritmo que além de ser é fonte de inspiração para a música brasileira, faz parte também da cultura do nosso país, que tem a diversidade como marca registrada.

Um comentário:

Unknown disse...

SENSACIONAL!!!
Até que enfim o tema foi tratado com a propriedade e o respeito que sempre mereceu...

"Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar..."

Merece apláusos...
Memorável...